Brasil entra na ?ONU da IA? liderada pela China, mas sem EUA e Europa

17 de Jul de 2026 - 12:00
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Brasil entra na ?ONU da IA? liderada pela China, mas sem EUA e Europa

Enquanto Estados Unidos e União Europeia ficaram de fora, o Brasil participou da criação de uma nova organização global de inteligência artificial liderada pela China. O movimento mostra que a disputa pela tecnologia já não acontece apenas nos modelos, mas também nas instituições que vão definir suas regras.

Estou em Xangai como parte da delegação brasileira organizada pelo Itamaraty para participar da WAIC (World Artificial Intelligence Conference), uma das maiores e mais importantes conferências de IA do mundo. Represento o Ceweb.br nessa missão para acompanhar os debates técnicos da tecnologia, mas a abertura já deu o tom de que esta edição terá um peso político diferente das anteriores.

Nesta sexta-feira, Xi Jinping abriu a conferência pessoalmente pela primeira vez na história do evento. A presença do presidente do país no palco de um evento sobre IA mostra o peso que a China passou a dar à disputa pelas regras globais da tecnologia.

Um dia antes da abertura da conferência, representantes de 29 países assinaram o acordo que cria a WAICO, uma espécie de "ONU da IA" que terá sede em Xangai. O Brasil está entre os países fundadores, e o acordo continuará aberto para novas assinaturas.

Só que as ausências chamam ainda mais atenção. Nem os Estados Unidos, nem os países da União Europeia aparecem entre os fundadores. Os americanos, aliás, estão construindo seu próprio arranjo, a Pax Sílica, voltado à coordenação entre aliados nas cadeias de semicondutores, minerais críticos, energia e infraestrutura de IA.

A lista de fundadores ajuda, portanto, a entender o propósito da nova organização. Enquanto boa parte dos arranjos internacionais mais influentes nasceu das preocupações dos países ricos, como a segurança dos modelos de fronteira e o controle da infraestrutura, a WAICO tenta deslocar o debate para outra direção.

Seu ponto de partida é o desenvolvimento e a soberania dos países que ficaram para trás no acesso à tecnologia. A organização promete capacitação, transferência de conhecimento e infraestrutura compartilhada para reduzir essa desigualdade. É a primeira organização intergovernamental de IA desenhada a partir dos problemas do Sul Global.

E a China aproveitou a ocasião do evento para provar que tem mais a oferecer do que diplomacia. No mesmo dia da assinatura, coincidentemente ou não, a startup Moonshot AI lançou o Kimi K3, modelo aberto que disputa de igual para igual com os melhores sistemas fechados americanos.

O desempenho do novo modelo chinês chamou atenção por ter superado o Fable em alguns testes de avaliação. O modelo de IA da Anthropic foi considerado tão avançado que o governo americano chegou a proibir o acesso de estrangeiros à tecnologia.

Mas o que o Brasil pode ganhar ao entrar nessa organização? E como evitar que a busca por soberania tecnológica termine criando uma nova dependência?

Aproveitei a oportunidade de estar em Xangai para conversar com Eugênio Vargas Garcia, embaixador para Tecnologia e Inovação do Itamaraty, que acompanhou todo o processo.

Ele me contou que "um dos principais objetivos da WAICO é atuar como uma plataforma multilateral para cooperação tecnológica entre seus membros. Isso abre novos caminhos para atingir as metas do Plano Brasileiro de IA (PBIA) em matéria de adoção, desenvolvimento e difusão da IA no país".

A assinatura também mostra a estratégia brasileira de não ficar dependente de nenhum polo. "Buscamos explorar todas as oportunidades para ampliar a cooperação internacional. O Brasil dialoga com todos e participa de todos os foros de IA com visão própria. Poucos países são capazes de atuar em tabuleiros tão diferentes ao mesmo tempo", contou o embaixador.

Para ele, essa posição pode se converter em protagonismo. "Estamos em posição de exercer uma liderança normativa cada vez maior, levando além-fronteiras nossa abordagem centrada no desenvolvimento, na soberania digital, na democracia, nos direitos humanos, e numa IA ética, inclusiva e ambientalmente sustentável."

Mas vamos combinar que o desafio não é pequeno. A WAICO nasce no meio da queda de braço entre China e Estados Unidos pelo controle da tecnologia. E, nesse contexto, organizações como essa correm o risco de servir mais aos interesses dos países poderosos que as lideram do que aos interesses do conjunto de seus membros.

Ainda assim, o movimento tem um significado geopolítico que não podemos ignorar. O Sul Global deixou de ser apenas espectador da disputa pela IA e decidiu participar da construção das instituições que pretendem definir suas regras, liderada especialmente pela China. O desafio agora é fazer com que essa participação produza mais autonomia, e não apenas uma nova dependência.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.