Ancelotti não é o único mestre: atletas tem ?aulas particulares? de tática
A preparação dos jogadores da seleção brasileira para a Copa do Mundo não passa apenas pelos treinamentos em clubes e pela rotina com a comissão técnica do técnico Carlo Ancelotti.
Cada vez mais atletas investem em consultorias táticas particulares para aprimorar a leitura de jogo, corrigir comportamentos em campo e potencializar o desempenho individual.
Alguns dos principais nomes da seleção recorreram a esse tipo de serviço nos últimos anos.
É o caso de Danilo Santos, Igor Thiago e Gabriel Martinelli, atendidos pela empresa Outlier, de Nova Lima (MG).
Bruno Guimarães e Raphinha, por sua vez, realizam acompanhamento individual com a Performa Sports.
A prática ganhou espaço justamente entre jogadores que atuam em alto nível e buscam vantagens competitivas em aspectos cada vez mais decisivos do futebol moderno, como ocupação de espaços, tomada de decisão e compreensão dos modelos de jogo dos treinadores.
Danilo e Igor Thiago são exemplos desse movimento. Ambos garantiram lugar na lista final para a Copa do Mundo após boas atuações no amistoso contra a Croácia, em março, na última Data Fifa.
As características que mais chamam atenção em seus jogos estão diretamente ligadas a conceitos trabalhados pelas consultorias.
Danilo se destaca pela capacidade de aparecer como elemento surpresa no ataque, enquanto Igor Thiago se notabiliza pela leitura de espaços para finalizar como centroavante.
Igor trabalha com a Outlier há três anos e meio, desde sua passagem pelo Ludogorets, da Bulgária. O atacante é acompanhado pelo analista Bruno Lima. Danilo iniciou o trabalho ainda nos tempos de Palmeiras e é atendido por João Felipe, também integrante da empresa.
O crescimento desse mercado é acompanhado de perto pela comissão técnica da seleção brasileira, que tem conhecimento da existência das consultorias e vê a iniciativa com bons olhos. O serviço, inclusive, não está restrito aos atletas: treinadores e clubes também figuram entre os clientes das empresas especializadas.
Ano passado atendemos jogadores de 18 dos 20 clubes da Série A do Brasil. Com exceção de Flamengo e São Paulo, tivemos ao menos um jogador atendido em algum momento em todos os outros clubes da Série A. Hoje, o mais comum é ter do que não ter. É um movimento parecido com o que aconteceu com o preparador físico próprio no passado, onde alguns atletas começaram a ter e logo todos passaram a ter Rafael Marques, fundador da Performa Sports.
Além de Bruno Guimarães e Raphinha, a Performa também atende jogadores que disputarão a Copa por outras seleções, como Pitta e Maurício, do Paraguai, e Alan Franco, do Equador.
A Outlier, por sua vez, já trabalhou com Endrick e teve entre seus clientes atletas que estiveram próximos de uma convocação, como Andrey Santos.
Como funcionam as consultorias
Fundador da Outlier, Diego Vieira explica que o trabalho é desenvolvido em três etapas principais.
"São três etapas. A primeira é um diagnóstico de quem é o treinador do nosso cliente, aprofundar muito nas preferências de jogo dele. A segunda é um diagnóstico aprofundado, de dados quantitativos e qualitativos de muitos jogos da história do atleta, para entender onde existe oportunidade de abrir os olhos para uma possível melhora", explica.
"O terceiro ponto é ter uma constância de encontros e materiais gerados, para despertar esse entendimento do atleta de comportamentos individuais de jogo que podem acarretar numa melhora individual e coletiva, dialogando com o que foi observado sobre o treinador", acrescenta.
A origem da empresa remonta a uma amizade entre Diego Vieira e o atacante Leo Bonatini. Ex-jogador universitário e auxiliar técnico nos Estados Unidos, Diego começou a desenvolver o modelo de trabalho depois de ouvir de Bonatini, então no Wolverhampton, que nunca havia recebido um acompanhamento individual voltado especificamente para questões táticas.
Bonatini se tornou o primeiro cliente, em 2018. O projeto chamou a atenção de empresários e outros atletas, permitindo a expansão do negócio.
Na prática, tanto a Outlier quanto a Performa realizam encontros frequentes, normalmente de forma remota, para analisar jogos já disputados e preparar os desafios seguintes.
São reuniões ou semanais ou jogo a jogo, dependendo da disponibilidade do atleta, feitas por vídeo chamada, onde evidenciamos o que o atleta precisa melhorar e o que fez bem em relação ao último jogo ou aos últimos jogos. E já preparando para o próximo jogo, mostrando as características dos enfrentamentos setoriais Rafael Marques, da Performa Sports
Marques é um dos principais estudiosos de análise tática do país. Formado pela Associação de Treinadores do Futebol Argentino, ele também dirige a escola Laboratório do Futebol e atua como comentarista do SporTV.
Na Outlier, os encontros alimentam um banco de dados que registra diferentes comportamentos dos atletas em campo, como tipos de passe, finalizações, posicionamentos, movimentações e domínios de bola em diversas situações de jogo.
Esse material é analisado por especialistas, que atribuem avaliações qualitativas às ações executadas pelos jogadores.
A gente desenvolveu uma metodologia. São mais de 50 comportamentos táticos individuais, os nossos atletas são avaliados em cima deles. A gente qualifica essas ações deles em campo, não é quantificar 'ele fez dez chutes, acertou oito'. A gente vai qualificar a finalização, qualificar o posicionamento, qualificar os movimentos. Ao passar do tempo a gente tem uma inteligência absurda do que foi trabalhado com esse atleta, e o quanto ele se desenvolveu nesses comportamentos Diego Vieira, da Outlier
Segundo Rafael Marques, os resultados podem ser percebidos até mesmo em atletas consolidados no futebol europeu. Ele cita como exemplo Bruno Guimarães.
"Alguns atletas têm acordo de confidencialidade, o que não me permite dizer o que é trabalhado em sessão com ele, mas dos que não tem, posso falar do perfilamentos do Bruno em relação a construção, antes era muito condicionado pelo pé dominante, hoje joga muito mais com o pé que pede a jogada, inclusive o esquerdo, o que permite ter maior controle das ações em construção".
O Brasil estreia na Copa do Mundo contra o Marrocos, amanhã, às 19h (horário de Brasília), em Nova Jersey. .