Acusações contra Raúl Castro abrem brecha para operação dos EUA em Cuba

20 de Mai de 2026 - 20:45
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Acusações contra Raúl Castro abrem brecha para operação dos EUA em Cuba

Os EUA aumentaram a pressão sobre o regime cubano nesta quarta-feira (20) ao apresentar acusações na Justiça americana contra o ex-ditador Raúl Castro, considerado a figura mais proeminente da ditadura cubana ainda viva, desde a morte de seu irmão Fidel em 2016 - que governou a ilha com mão de ferro.

O indiciamento surge em meio ao agravamento da crise energética e da cobrança frequente dos EUA por mudanças políticas e sociais para a população cubana. Além de abrir caminho para a captura de um símbolo do regime castrista, o processo judicial pode se tornar um passo crucial para o objetivo da Casa Branca de levar a ditadura ao colapso.

A notícia rapidamente gerou expectativa em Miami, onde ativistas comemoraram a medida em um evento simbólico na Freedom Tower do Miami Dade College, em homenagem às vítimas do ataque pelo qual Raúl Castro é acusado. As imputações proferidas contra o ex-governante são vistas como uma porta de entrada para uma ação militar americana semelhante à que resultou na captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro.

Apesar do plano jurídico internacional não autorizar que um indiciamento como este legalize uma invasão ou ação militar unilateral, no plano político e retórico a acusação serve perfeitamente como justificativa ideológica e de segurança interna para Donald Trump escalar drasticamente as ações contra a ilha, afirma Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

O analista político explica à Gazeta do Povo que as acusações feitas pelo Departamento de Justiça contra Raúl Castro dão sinal verde jurídico nos EUA para que a Casa Branca eleve sanções, patrulhas navais ou planeje operações especiais de captura.

O ex-ditador e outros cinco militares cubanos foram indiciados por crimes de conspiração para matar cidadãos americanos, destruição de aeronaves e homicídio.

De acordo com a Procuradoria-Geral dos EUA, Raúl Castro foi responsável por ordenar o abate, em 24 de fevereiro de 1996, de aeronaves da organização humanitária Irmãos ao Resgate, um grupo que auxiliava os balseiros que tentavam escapar de Cuba com destino à Flórida. Na ocasião, ele era ministro das Forças Armadas.

Paralelo com a Venezuela

O indiciamento do número dois da ditadura castrista e a pressão crescente sobre a regime liderado por Miguel Diáz-Canel rapidamente geraram discussões sobre a semelhança com o caso de Nicolás Maduro na Venezuela.

Em 2020, durante o primeiro governo Trump (2017-2021), Washington anunciou uma recompensa de US$ 15 milhões por informações que resultassem na captura do ditador venezuelano. No ano passado, esse valor foi aumentado para US$ 25 milhões.

Durante a primeira parte do segundo mandato de Trump, a pressão sobre Maduro apenas cresceu. Em agosto de 2025, as Forças Armadas americanas iniciaram operações próximas à Venezuela sob o pretexto de combater o narcotráfico, ao mesmo tempo em que tentavam dialogar com Caracas para uma saída pacífica do chavismo do poder.

Nesse mesmo período, membros do regime venezuelano teriam ajudado a Agência Central de Inteligência (CIA) a monitorar a localização de Maduro. As informações coletadas estavam relacionadas a seus movimentos diários e estilo de vida.

Essa política de asfixia da Casa Branca resultou na operação de 3 de janeiro, quando forças especiais americanas capturaram Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Eles foram transferidos para os EUA, onde enfrentam acusações de narcoterrorismo e tráfico de drogas em um julgamento que promete ser longo. 

Segundo Coimbra, o paralelo com a operação realizada em janeiro na Venezuela não é mera coincidência, mas sim o modelo de atuação que a administração Trump está replicando, evidenciado por declarações oficiais de que esperam que Castro responda em Miami por vontade própria ou por outro meio.

"Assim como Nicolás Maduro foi indiciado nos EUA por narcoterrorismo para justificar o sufocamento de sua legitimidade e uma recompensa por sua cabeça, Raúl Castro agora é enquadrado por homicídio, transformando o tribunal federal da Flórida no palco principal para deslegitimar regimes de esquerda na América Latina", pontua.

A pressão sobre Cuba ganhou fôlego justamente após a captura e extradição de Maduro por forças americanas no início do ano.

Em ambos os casos, a meta explícita da estratégia de Trump ultrapassa a punição individual, buscando o colapso estrutural e a deposição dos regimes por meio do estrangulamento econômico e da pressão jurídica, tratando os líderes da Revolução Cubana como criminosos comuns sujeitos à captura e elevando o risco de um confronto direto no Caribe, avalia o analista.

Ao mesmo tempo em que investe na ameaça militar, os EUA apelam para a mobilização social dos cubanos, que são as vítimas diárias de um sistema em colapso na ilha.