Último debate antes do 2º turno é marcado por cobranças econômicas e ataques entre Lula e Flávio
O debate da TV Globo entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), realizado nesta sexta-feira (23), foi marcado por críticas à condução da economia, aos programas sociais, ao custo de vida e ao poder de compra. Os candidatos também disputaram o legado de seus grupos políticos em temas como infraestrutura, agronegócio, saúde e valorização do salário mínimo.
Flávio abriu o confronto questionando a capacidade de Lula de concluir obras de infraestrutura. O senador citou levantamentos sobre empreendimentos paralisados e perguntou como o presidente conseguiria entregar os projetos se não o fez ao longo de quatro anos de mandato.
Lula rebateu, citou investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e enumerou obras em andamento. Na réplica, o petista comparou o adversário a estudantes que decoram o conteúdo para uma prova, mas não aprendem de fato.
O embate sobre a economia ganhou força quando Flávio questionou o poder de compra dos brasileiros. “Hoje é dia 23 de outubro, o mês ainda não acabou. O seu salário já acabou?”, perguntou o senador, ao criticar os preços dos alimentos, os impostos e os gastos públicos.
Lula defendeu a política de valorização do salário mínimo dos governos petistas e questionou o adversário sobre a possibilidade de reajustar os benefícios acima da inflação. Os candidatos também divergiram sobre o agronegócio.
Ao questionar Lula sobre o setor, Flávio criticou as condições de financiamento rural e a condução do Plano Safra. O petista, por sua vez, defendeu os recursos destinados ao agronegócio e atacou a postura do adversário em relação ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
“Quando meu adversário ficou lambendo as botas do Trump para taxar o Brasil, não fiquei preocupado”, afirmou Lula, ao defender a abertura de novos mercados para os produtos brasileiros.
Na discussão sobre salários e aposentadorias, Lula comparou as propostas de Flávio às medidas adotadas pelo presidente argentino Javier Milei. O senador afirmou que pretende reajustar o salário mínimo e as aposentadorias acima da inflação e acusou o governo petista de elevar os gastos públicos.
Saneamento e segurança pública marcam embate sobre Norte e Nordeste
Ainda no primeiro bloco, Flávio Bolsonaro questionou Lula sobre o saneamento básico e afirmou que o PT votou contra o marco legal do setor no Congresso. Entre outros pontos, o senador citou a falta de água tratada e de coleta de esgoto e prometeu retomar a meta de universalização dos serviços até 2033.
Já o presidente Lula mencionou investimentos em saúde, estradas, portos e aeroportos e criticou a atuação ambiental do governo de Jair Bolsonaro. No debate sobre o Nordeste, Lula questionou o que Flávio pretende fazer pela região .
Flávio respondeu que pretende atuar em parceria com governadores, inclusive os que não integram sua base política, e colocou a segurança pública entre as prioridades. O senador acusou governos estaduais nordestinos ligados ao PT de permitir o avanço do crime organizado.
“Eu vou governar para o Nordeste, vou governar inclusive em parceria com os governadores que não são aliados meus políticos. Lula, os estados do Nordeste são administrados pelo PT e pelos seus parceiros. São os mais violentos do Brasil. Você deixou o Comando Vermelho se proliferar pelo Nordeste junto com os governadores que são seus apoiadores", respondeu Flávio.
Candidatos acirraram confronto no segundo bloco
Depois de um primeiro bloco concentrado em economia, custo de vida e infraestrutura, Lula e Flávio Bolsonaro levaram o confronto para as políticas sociais. A discussão começou com a licença-maternidade e avançou para o Bolsa Família, a população em situação de rua e a violência contra mulheres.
O principal embate nessa rodada foi em torno da expressão “nove dedos”, usada pelo senador para se referir ao presidente. Lula reagiu à provocação, cobrou um pedido de desculpas e afirmou que a fala desrespeitava os trabalhadores que sofreram acidentes de trabalho.
O confronto começou quando Lula questionou o voto de Flávio contra o aumento da licença-maternidade, durante o período em que o senador era deputado estadual no Rio de Janeiro. Flávio reconheceu que mudou de opinião sobre o tema.
“Eu estava errado. Hoje, depois que eu casei, depois que eu tenho duas filhas, mais do que nunca eu sei da importância da mãe estar perto do filho por até mais de 180 dias, se possível”, afirmou o candidato do PL.
SUS domina debate sobre saúde pública
Na discussão sobre saúde pública, Lula e Flávio Bolsonaro voltaram a trocar acusações sobre a gestão da pandemia de Covid-19 e o funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS).
O senador defendeu um corte de gastos que chamou de “tesouraço” na corrupção, na burocracia e nos impostos, enquanto o presidente criticou a atuação do governo de Jair Bolsonaro durante a crise sanitária. Flávio afirmou que o SUS enfrenta problemas de gestão e falta de medicamentos, além de longas filas para consultas e atendimentos especializados.
“Você chega num hospital e é fila pra tudo”, disse. O senador também questionou o tempo de espera para o atendimento de crianças com deficiência e afirmou que os recursos destinados à saúde são "mal aplicados".
Lula rebateu as críticas e defendeu o papel do SUS durante a pandemia. O presidente responsabilizou o governo Bolsonaro pelas mortes por Covid-19 e afirmou que a atuação do sistema público de saúde evitou que o número de vítimas fosse ainda maior.
“O SUS é o responsável por evitar que morresse mais gente da Covid depois da responsabilidade do governo do pai dele”, declarou Lula. O presidente também criticou a postura de Jair Bolsonaro diante da vacinação e disse que o então presidente deveria ter formado um gabinete de crise com especialistas para enfrentar a pandemia.
Flávio acusa Lula de agravar endividamento das famílias e critica promessas eleitorais
O endividamento dos brasileiros foi o tema escolhido por Flávio Bolsonaro para abrir o terceiro bloco do debate. O senador acusou o presidente Lula de agravar a situação financeira das famílias com os gastos públicos e os juros elevados.
“O brasileiro antes parcelava um fogão, parcelava um micro-ondas, parcelava a geladeira, agora parcela o que tem dentro da geladeira”, afirmou o senador, ao questionar a perda do poder de compra e o aumento do endividamento das famílias.
Por outro lado, o petista defendeu os programas de renegociação de dívidas de seu governo e afirmou que pretende ampliar as medidas em um eventual novo mandato. "Nós fizemos dois Desenrolas. No primeiro, atendemos 15 milhões de pessoas. No segundo, atendemos quase 16 milhões de pessoas", defendeu o petista.
Ao rebater, o candidato do PL também acusou Lula de gastar mais de R$ 405 bilhões para tentar a reeleição e de fazer promessas que, segundo ele, não serão cumpridas. “Você prometeu picanha e não entregou a picanha. Você prometeu devolver o poder de compra para o brasileiro e não entregou, está entregando dívida”, declarou.
Ainda nesse bloco, Lula associou o endividamento das famílias às apostas on-line e defendeu o combate às chamadas bets. “Nós acabamos com as bets porque elas estão virando um inferno na vida das pessoas”, afirmou, ao argumentar que as apostas comprometem recursos que poderiam ser usados para sustentar as famílias.
Segurança pública também foi tema do terceiro bloco
Ainda no terceiro bloco, a segurança pública marcou o confronto entre Lula e Flávio. O senador escolheu o tema “retomada de territórios” para questionar o presidente sobre as saídas temporárias de presos, conhecidas como “saidinhas”, e a classificação de organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos terroristas.
Flávio criticou a posição de Lula sobre as saídas temporárias e afirmou que o presidente prioriza os interesses dos criminosos em detrimento dos das vítimas. “Por que você coloca o interesse das vítimas na frente dos bandidos?”, perguntou o senador.
Na resposta, Lula citou o caso da menina Ana Clara e questionou Flávio sobre o motivo de ele ter defendido o policial acusado de envolvimento no crime. O presidente mencionou a mãe da criança, que estava na plateia, e afirmou que ela e a população brasileira gostariam de entender a posição do senador.
“Ela, eu e o Brasil inteiro gostaríamos de saber: o que leva um senador da República a defender um policial assassino que deu tiro em uma criança de 5 anos?”, declarou Lula.
Flávio manifestou solidariedade à mãe da menina, mas afirmou confiar que o policial acusado não foi o autor do disparo. O senador sustentou sua posição sobre o caso, enquanto Lula voltou a questioná-lo sobre a defesa do agente.
Lula questiona Flávio sobre disputa por ilha em Angra, e senador nega relação com o caso
O quarto e último bloco do debate da TV Globo começou com uma troca de acusações sobre a disputa pela posse de uma ilha em Angra dos Reis (RJ). Lula questionou o senador sobre a denúncia envolvendo o jogador de futebol Richarlison e o advogado Willer Tomaz, apontado pelo presidente como amigo e sócio de Flávio.
Segundo a denúncia mencionada no debate, Richarlison afirma ter investido cerca de R$ 10 milhões na propriedade, na Ilha Comprida, e alega ter perdido a posse do imóvel após se recusar a vendê-lo. Lula cobrou explicações de Flávio sobre a participação de Tomaz na disputa.
“Como vocês tomaram a ilha do Richarlison?”, perguntou o presidente. Lula também questionou como a posse do terreno teria mudado sem que o jogador fosse comunicado.
Flávio negou que o imóvel tenha pertencido ao atleta. “A ilha nunca foi do Richarlison”, afirmou o senador. Ele também disse que a Justiça já havia julgado a questão e negou que Willer Tomaz fosse seu sócio, afirmando que os dois são amigos.
Na sequência, Flávio questionou o presidente sobre um uísque avaliado em R$ 500 mil que, segundo ele, Lula teria recebido. O presidente, por outro lado, mencionou o banqueiro Daniel Vorcaro, ligado ao caso Banco Master.
“O que você não se conforma é que você criou um banqueiro e eu fiz dele prisioneiro”, afirmou o presidente. Em seguida, declarou: “Você e Vorcaro parecem uma coisa só”.
Flávio Bolsonaro afirmou que a Polícia Federal teria concluído um relatório indicando que não houve uso de dinheiro público no filme Dark Horse, sobre a vida de seu pai, Jair Bolsonaro. O senador disse que os recursos recebidos foram integralmente destinados à produção e que não houve contrapartida em troca do patrocínio.
Lula reconhece tom elevado e Flávio ganha direito de resposta
Nas considerações finais do debate Lula agradeceu aos brasileiros e pediu desculpas pelo tom elevado adotado durante o confronto com Flávio. O presidente afirmou que o domingo "será decisivo para o país" e defendeu sua trajetória política, destacando a própria biografia e o caminho percorrido até chegar à Presidência da República.
Ao encerrar sua participação, o petista disse que a escolha dos eleitores definirá o futuro da democracia brasileira. “Ou a gente mantém a democracia funcionando ou a gente vai ter um miliciano governando este país”, declarou, em referência ao adversário.
Após a fala de Lula, Flávio teve um direito de resposta concedido, onde afirmou que nunca foi investigado por envolvimento com milícias e prometeu combater esses grupos criminosos. Também defendeu que os brasileiros tenham mais segurança no dia a dia, inclusive para circular pelas ruas usando o celular sem medo de assaltos.
“Eu nunca fui investigado por relação com milícia. [...] Eu vou combater as milícias, vou classificá-las como organizações narcoterroristas e vou recuperar os territórios dominados por criminosos”, afirmou o senador
Em suas considerações finais, Flávio afirmou que pretende concentrar seu compromisso em três pontos, entre eles recuperar o poder de compra dos brasileiros e defender a liberdade. O senador também disse que quer garantir mais tranquilidade à população.
Quem acompanha Lula e Flávio no debate da Globo
- Flávio Bolsonaro (PL): Fernanda Bolsonaro, mulher do candidato; Daniella Marques, assessora econômica da campanha; e Carlos Bolsonaro (PL-SC), irmão do senador e senador eleito por Santa Catarina.
- Lula (PT): Janja Lula da Silva, primeira-dama; Camilo Santana (PT-CE), senador; e Sidônio Palmeira, ministro da Secretaria de Comunicação Social.
- Aliados de Lula: Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente e candidato a vice na chapa; Edinho Silva, presidente nacional do PT; Guilherme Boulos, ministro da Secretaria-Geral da Presidência; Rui Costa, ex-ministro da Casa Civil e senador eleito; e Anielle Franco, ex-ministra da Igualdade Racial e deputada federal eleita.
- Aliados de Flávio: Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo; Sérgio Moro (PL-PR), senador eleito; Jorginho Mello (PL), governador de Santa Catarina; Douglas Ruas (PL), governador eleito do Rio de Janeiro; e Luciano Zucco (PL), governador eleito do Rio Grande do Sul. Também estavam Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha, e Alfredo Gaspar, candidato a vice-presidente na chapa.