Sobre motores e dedos sujos: por que devemos ensinar a ler notícias
Desde que comecei a escrever neste espaço, havia três temas bastante caros para mim que desejava abordar: desertos de notícias e seu risco para a democracia, a importância de inclusão de pessoas idosas no acesso à tecnologia e o valor da educação midiática como um dos antídotos contra a desinformação. Os dois primeiros foram temas de textos publicados há algumas semanas (caso tenha curiosidade, estão e ). O terceiro, é esse de hoje.
Meu receio recaía sobre a ideia de que falar sobre esses temas soasse como algo que só interessa a quem está envolvido nesse meio, como o tipo de conversa que às vezes eu tinha com um amigo que trabalha com carros. Fissurado pelo assunto, ele usava expressões misteriosas do tipo pistões, injeção hidráulica, torque e arrefecimento e eu me esforçava bastante para mostrar algum interesse, mas no dia em que ele perguntou quantos cavalos tinha meu carro novo, entrei num devaneio pensando em centenas de equinos arrastando nosso veículo pela estrada e não consegui disfarçar minha ignorância.
Em homenagem a ele, eu diria que para efeitos alegóricos, o jornalismo, assim como um carro, é algo que qualquer pessoa é capaz de apontar e nomear, mas nem todo mundo sabe como é feito. Está em nosso dia a dia, você vê na rua, usa, nomeia, diz que não funciona para nada e está estragando o planeta, mas explicar minimamente o seu funcionamento é algo que demanda certo aprendizado.
Aprendizado ou, talvez seja mais correto dizer, um esforço mais cuidadoso de ensino.
A educação midiática - para eu finalmente aterrissar no meu tema - é o pequeno curso de mecânica que todos deveríamos fazer para entender como funciona algo com o qual nos relacionamos diariamente, mas que de tão incrustado em nosso cotidiano se tornou uma paisagem cujas nuances pouco distinguimos.
Bom, aos colegas que trabalham com veículos, peço desculpas pela analogia rasa.
Especialmente em tempos em que quase tudo e todo mundo virou mídia, ensinar a ler e entender a mídia, seus formatos e linguagens, é importante como processo de aprendizagem e, em especial, como método preventivo contra desinformação, golpes e todo tipo de groselha que tentam nos entubar em nossos feeds.
A educação midiática, entre as iniciativas existentes com esse fim, é capaz de ajudar leitores, espectadores e ouvintes a fazerem uma avaliação crítica e formar cidadãos que sejam ativos em sua leitura de mundo e capazes de distinguir fatos noticiados, dados, opiniões, resenhas, crônicas. Em tempos de "não sei se é verdade, mas vai que?" parece utópico, mas tem gente séria dedicada a fazer esse trabalho de formação em escolas, universidades e, claro, através da própria mídia. Mas falta mais espaço para isso circular.
Quando você acessa uma notícia, se torna parte ativa do processo de consumo daquela informação. Porque recebe, assimila, mas também atua de alguma forma - nem que seja com um murmúrio de indignação.
O recorte das redes sociais distorce a percepção e a linha de distinção entre o que é fato, opinião e piada fica borrada.
Seria fácil jogar isso apenas na conta dos altos índices de que temos no Brasil (29% segundo o IBGE), mas seria também meio covarde. Porque dados do de 2018 já davam conta de que 67% dos jovens brasileiros na faixa dos 15 anos não conseguem distinguir fato de opinião (o dado é antigo, mas não menos grave. No PISA de 2029, a OCDE anunciou que incluirá um novo tópico dedicado a isso, nomeado como "Media and Artificial Intelligence Literacy"). Ou seja, mesmo entre pessoas com acesso à educação, o cenário prevalece.
É possível também jogar esse problema no colo da produção fabril de conteúdo falso que se espalha como febre pela internet, intencionalmente construído para se diluir entre publicações em redes sociais e que tem como objetivo distorcer e manipular o público desavisado (ou mal formado). E não seria mentira dizer que isso contribui para que a situação se agrave.
Mas tudo isso a gente já sabe. E gostaria de propor que colocássemos uma lupa sobre iniciativas como o do Instituto Palavra Aberta que insere o tema na grade curricular escolar da rede pública em parceria com famílias e educadores e já atingiu mais de 11 milhões de pessoas e está presente em cidades de todos os estados do país. Tem ainda o trabalho da escritora e jornalista com grupos de trabalho e pesquisa na Universidade de São Paulo.
Outro exemplo que circulou há alguns anos e gostaria de ver ressurgir foi o criado pela equipe do projeto Comprova há quatro anos e que tinha como alvo educar idosos acerca do tema.
São exemplos de quem trabalha, na base e na academia, no esforço de alfabetização midiática. Mas não é o bastante.
Meu voto é que a reciclagem desses conceitos deveria ser parte de uma campanha liderada por poder público, sociedade civil, empresas de tecnologia e veículos (os de mídia, não os que meu amigo curte).
Nesse sentido, a educação, que por essência não é um evento mas um esforço contínuo de formação, precisa ser espalhado e se tornar um processo.
O UOL coloca aqui no rodapé uma explicação do que isso é. Uma coluna de opinião, por definição, vai dizer o textinho aí abaixo do ponto final, é "texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados" e emenda que "este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL", o que evidencia que a responsabilidade pelas bobagens que escrevo é só minha. Ao passo que uma reportagem (, assinada pelo Tiago Mali) é um "texto que relata acontecimentos, baseado em fatos e dados observados ou verificados diretamente pelo jornalista ou obtidos pelo acesso a fontes jornalísticas reconhecidas e confiáveis".
Ainda que útil, isso serve a quem chega até esse ponto. E como temos visto, não é muita gente. Se você está aqui, lendo esse tipo de coisa é porque naturalmente compreende e se interessa por isso e estamos aqui, você e eu, fazendo eco para nosso lamento. Mas o convite implícito é para uma reflexão e vem imbuído de uma dúvida legítima: não deveríamos estar fazendo mais a respeito?
Tanto quanto discutir o que tem no noticiário, faz sentido parar para entender como se faz. Até para que a crítica seja fundamentada e leve, no fim do dia, a um produto melhor.
Afinal, um dos antídotos contra a desinformação é saber decupar como se constrói um veículo.
Quando abro o capô de um carro e olho para aquela cena, vejo um portal misterioso composto por ferros, fios e plásticos. E há água em algum lugar, acho. Tudo ali me parece perigoso a tal ponto que, se estou sozinho, fecho o quanto antes com medo de que um monstro de metal e fios brote daquele buraco cinzento. Se estou acompanhado, solto ruminações e onomatopeias do tipo "hum" e "uau" e dou um leve peteleco numa superfície qualquer - sempre com medo de queimar o dedo - para fazer de conta que sei minimamente do que se trata. A única semelhança entre jornais e capôs de carro é que ao abri-los, você invariavelmente os fecha com os dedos sujos.
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Essa semana, estou de férias e calhou de cair na semana em que fomos atropelados por Haaland na .
Terminei de assistir (Steve Carrell vale pela série), mas a Copa do Mundo segue comprometendo meu tempo de tela - tá legal, não só de tela. Terminei também a leitura de do David Foster Wallace e o ensaio sobre Federer ("Roger Federer como experiência religiosa") segue como das melhores peças de não ficção que li.
O sobre a "lei salve nosso " no congresso americano e sua analogia com nossa síndrome de eficiência vale a leitura.
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.