Morte de mergulhadores nas Maldivas desafia autoridades
Cinco italianos morreram após realizarem um mergulho nas Maldivas na última quinta-feira (14), no que autoridades locais estão classificando como o pior acidente de mergulho da história do arquipélago.
O grupo contava com a presença de algumas pessoas que possuíam certa experiência de mergulho. Os integrantes desceram, segundo as autoridades, a cerca de 50 metros de profundidade para visitar uma caverna submarina no atol Vaavu. Essa profundidade é quase o dobro do limite recreativo permitido pelas autoridades locais. As mortes foram confirmadas tanto pelo governo da Itália quanto pelo das Maldivas.
Dois dias depois da morte dos italianos, um sargento da Marinha das Maldivas, que participava da operação de resgate dos corpos, também morreu depois de passar mal após mergulhos. Os casos estão sob investigação oficial.
Os cinco italianos desapareceram no canal Devana Kandu, um dos principais pontos de mergulho do atol Vaavu, que fica próximo à ilha de Alimathaa, localizada a cerca de 100 quilômetros ao sul de Malé, a capital das Maldivas. Segundo o Ministério das Relações Exteriores da Itália, o grupo havia partido do liveaboard MV Duke of York, embarcação de hospedagem usada em expedições de mergulho, antes de descer em direção a um sistema de cavernas submersas no atol formado por três grandes câmaras conectadas por passagens estreitas.
Segundo as informações, o grupo chegou a aproximadamente 50 metros de profundidade, acima do limite permitido para mergulho recreativo nas Maldivas, fixado em 30 metros. Pelos padrões das principais agências internacionais de certificação, descidas abaixo de 40 metros já entram na categoria de mergulho técnico, que exige grande treinamento, planejamento e equipamentos específicos. Nas Maldivas, mergulhos além dos 30 metros também dependem de autorização especial das autoridades marítimas. Segundo a operadora responsável pelo MV Duke of York, essa autorização especial não havia sido solicitada.
Apenas um corpo foi recuperado no mesmo dia do desaparecimento, a cerca de 60 metros de profundidade, próximo à entrada da caverna, o do instrutor de mergulho Gianluca Benedetti. Os outros quatro mergulhadores permanecem desaparecidos no interior do sistema submarino.
As vítimas
As vítimas foram identificadas pelo governo das Maldivas como Monica Montefalcone, professora associada de ecologia marinha da Universidade de Gênova; sua filha Giorgia Sommacal, estudante de engenharia biomédica; Muriel Oddenino, pesquisadora; Federico Gualtieri, biólogo marinho recém-graduado; e Gianluca Benedetti, o instrutor de mergulho cujo corpo já foi recuperado.
Montefalcone e Oddenino estavam no arquipélago em uma missão científica oficial da Universidade de Gênova, dedicada a monitorar ambientes marinhos e estudar os efeitos das mudanças climáticas sobre a biodiversidade tropical. A instituição afirmou que a atividade de mergulho que resultou na morte dos dois não fazia parte da pesquisa planejada e foi realizada de forma privada. Sommacal e Gualtieri não integravam a missão.
Carlo Sommacal, marido de Montefalcone e pai de Giorgia, disse que sua esposa era uma “mergulhadora disciplinada”, que avaliava cuidadosamente os riscos antes de cada descida, e lembrou que ela havia sobrevivido ao tsunami de 2004 - desastre que matou mais de 230 mil pessoas em 14 países do Oceano Índico - enquanto mergulhava na costa do Quênia.
"Algo deve ter acontecido lá embaixo", afirmou, segundo a agência Associated Press (AP).
Socorrista morreu após passar mal depois de mergulho
A operação de resgate, que foi iniciada logo após o desaparecimento dos mergulhadores ter sido noticiada, foi classificada por autoridades locais como "de altíssimo risco". O trabalho, contudo, sofreu um duro golpe neste sábado (16), quando o sargento-mor Mohamed Mahudhee, das Forças de Defesa Nacional das Maldivas (MNDF), passou mal durante a missão. Mahudhee foi levado a um hospital em Malé após apresentar sinais de doença descompressiva, condição provocada pela formação de bolhas de gás na corrente sanguínea durante a subida após mergulhos em grandes profundidades. Ele não resistiu e se tornou a sexta vítima fatal ligada ao caso.
Mahudhee fazia parte do grupo de mergulhadores que havia apresentado o plano de busca ao presidente das Maldivas, Mohamed Muizzu, durante visita do chefe de Estado ao local do acidente nesta sexta-feira (15). Ele foi sepultado com honras militares em cerimônia acompanhada pelo próprio presidente. Após o episódio, as buscas foram suspensas e só foram retomadas com a chegada de equipes internacionais.
Operadora italiana se isenta de responsabilidade
A operadora italiana Albatros Top Boat, responsável pela comercialização do MV Duke of York, negou ter autorizado ou tomado conhecimento do mergulho realizado pelo grupo italiano na quinta-feira. A advogada Orietta Stella, em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, afirmou que a empresa "não sabia" que o grupo planejava descer além dos 30 metros permitidos e que jamais teria permitido uma operação desse tipo.
Pressionado pela repercussão internacional do caso e pela morte do militar, o Ministério do Turismo e Aviação Civil das Maldivas suspendeu indefinidamente a licença operacional do MV Duke of York, que possui capacidade para 25 hóspedes. A medida vale enquanto durar a investigação sobre o caso.
Shareef afirmou que uma investigação foi aberta para esclarecer por que o grupo ultrapassou o limite de 30 metros sem autorização. "A caverna é tão profunda que mergulhadores, mesmo com o melhor equipamento, não tentam se aproximar", declarou. A embarcação também levava outros 20 italianos no dia do acidente.
Após a suspensão das buscas depois da morte do sargento, as Maldivas pediram reforço internacional para tentar recuperar os demais corpos. Três mergulhadores finlandeses desembarcaram no arquipélago neste domingo (17). Segundo as autoridades locais, a equipe foi recomendada pela Itália e tem experiência em mergulhos profundos e em cavernas em diferentes partes do mundo. O Ministro das Relações Exteriores da Itália, Antonio Tajani, afirmou que "tudo o que for possível" será feito para repatriar os corpos.