Manifesto pela improdutividade
"O homem mede o tempo, e o tempo mede o homem" (provérbio italiano).
Estou atrasado. Este texto deveria ter sido publicado na quinta-feira, mas as centenas de afazeres e imprevistos da semana me impediram de terminá-lo a tempo.
Tempo, aliás, é uma ideia que me persegue tanto quanto eu tento persegui-la. Saio sempre derrotado, mas movido pelo TOC que me oprime, gasto um tempo danado tentando lidar melhor com o tempo que acho que não tenho. Pois é. É um ciclo quase infinito, só menor do que a lista de tarefas que acumulo.
Tenho um app de calendário, um de lembretes e uma lista de notas com tarefas que me ajudam a lembrar de tudo o que preciso realizar no dia, na semana, no mês e depois (depois é depois, ué). Eles me ajudam, sobretudo, a sentir culpa por não conseguir estar em dia com o sentimento que gostaria de ter de produtividade.
Produtividade, aliás, é uma ideia que parece não me perseguir tanto quanto eu tento evitá-la. No entanto, quem diria, meu atraso com o texto desta semana, em parte, é o tema sobre o qual planejei escrever.
No capítulo de abertura do livro , Carl Honoré começa sua narrativa contando que nossa relação com o tempo foi moldada ao longo dos últimos séculos pela invenção do relógio. Datam de 1500 a.C. os primeiros instrumentos com a finalidade específica de dividir o tempo em unidades menores do que o ciclo dos dias. Ainda assim, a humanidade dividia seu dia segundo os ciclos do tempo natural: comiam quando tinham fome, dormiam quando tinham sono.
Demorou quase três mil anos para que relógios mecânicos começassem a ser instalados em praças públicas, delegando assim, finalmente, a regra dos dias - e da vida - aos desmandos de um objeto que lhes determinava quando acordar, trabalhar, comer e se recolher. E quase 500 anos depois, as linhas de montagem e as indústrias cuspiam máquinas e manuais de produtividade mundo afora. A métrica do tempo passou a ser também a da pressa e da produção.
Foi mais ou menos nessa época que de damas e cavalheiros. Medir o tempo em segundos, minutos e horas era sinal de status ou, no caso de Santos Dumont, de eficiência.
Voltei a usar um relógio no pulso para outras funções que não as horas. O Garmin, testemunha e fiscal das minhas corridas matinais, entrega as horas e também outras métricas sobre minha performance esportiva e estado de saúde em detalhes que me demandariam um mestrado para entender. Ele calcula o ritmo em que corri, a distância (tem até GPS, o danado), minha atividade cardiovascular (tem até aquelas coisas que medem frequência cardíaca e não sei o nome, o danado), armazena alguns gigabytes de música (até walkman?) e é sensível a movimento. Ele diz quanto do meu sono foi leve, REM ou profundo (nesse caso, muito pouco; segundo o Garmin, sou um sujeito bastante superficial) e entrega indicadores a respeito das minhas corridas, como cadência, zonas de intensidade, elevação e limiar de lactato. Pago dois shakes de proteína para quem me explicar essas coisas.
Mas o relógio me diz outra coisa também. Com certa frequência, ele exibe uma mensagem matinal, que é a primeira coisa que vejo no dia: "status de treino: improdutivo". Quatro palavras, em uma telinha de 1,4 polegada, que derrubam pelo resto do dia a moral destas 73 polegadas que vos escreve. Ele diz que meu sono é improdutivo também. Improdutivo é uma coisa que um ex-chefe me falava bastante, mas era ele quem me pagava. Agora sou eu que pago a um relógio para me dizer isso.
Lembro de uma capa da revista WIRED de 2009 cuja chamada principal era (em tradução livre, "Vivendo por números - Rastreie seus dados. Otimize sua vida"). Os modelos fotografados na matéria usavam roupas esportivas de aspecto futurista - não, editores, o futuro não se tornou aquilo - e pulseiras rastreadoras nos braços que prometiam, veja só, monitorar os dados de saúde dos seus usuários para que tivessem vidas mais saudáveis e - lá vem a palavra mágica - produtivas.
Há 17 anos, aquilo soava tão estranho quanto interessante. Depois de ler, guardei a edição por um bom tempo na gaveta. Lidava de forma contraditória com a ideia de um dispositivo acoplado a mim resumindo meu dia em métricas e dados. Entre a possibilidade de saber mais e a de viciar nos números e viver em função disso. Parecia futurista e opressivo. Talvez fossem as duas coisas — e a profecia da revista se cumpriu.
Hoje, existem relógios bem mais sofisticados do que o meu, anéis com sensores, óculos conectados, pulseiras e todo tipo de dispositivo que atende ao mesmo desejo de metrificar tudo. Há também dispositivos específicos, como microchips usados para tratamento de doenças crônicas e próteses que apoiam a acessibilidade de pessoas com deficiência. E teremos, em um futuro logo ali, implantes cranianos para? para? bem, talvez para que o Elon nos transforme em do seu império marciano.
Nossas . A pretexto de ajudar na rotina, melhorar a saúde e aumentar a performance, topamos um esquadrinhamento de nossas vidas, agora sintetizadas em números, e nos submetemos a seja lá qual for a decisão ou mudança que nos faça acreditar que viveremos mais tempo, correremos maratonas mais rápido do que nossos cunhados, trabalharemos mais motivados e nos tornaremos pessoas melhores. E tomamos por "melhores" um conjunto otimizado de dados. Nos resumimos a isso: desejando mais saúde, produzimos doença.
Essa leitura da vida, ainda que nos detalhes do limiar de lactato (que raios?) é sintomático do que nos tornamos. Há essa obsessão pela ideia de produtividade e desempenho em tudo o que é moderno. E tudo é tão inatingível que estamos em defasagem com o tipo de ser que idealizamos nos tornar. Isso vale para o corpo, para o trabalho, para o esporte e para a forma como dividimos e gastamos o tempo. E o sentido de tempo, hoje, como disse Honoré, é basicamente o cálculo dos minutos que regem a existência.
Nina, minha filha, estava em uma viagem de estudos no começo deste ano e ligou para casa em um fim de semana qualquer. Era sábado à tarde, falávamos por videochamada e perguntei como estava sendo o dia dela. "Ah, queria ter feito tanta coisa, mas fiquei por aqui. Não fiz nada útil hoje. Foi meio improdutivo".
Mas o que é um dia útil, no fim das contas? Fazer coisas? Atribuímos ao ócio e ao tédio o sentido de inutilidade, mas não seria justamente esse não fazer, o hesitar e a elaboração imaginativa que vem como resultado disso, algo tão importante para nossa constituição humana? Nossa chamada terminou com uma conversa mais ou menos assim e não falamos mais nesse assunto até a semana passada.
Quando li, por determinação da minha terapeuta, o livro , de Byung-Chul Han, a princípio fiquei em choque com o que ele escreveu a respeito do esgotamento: "A coação de desempenho força-o a produzir cada vez mais. Assim, jamais alcança um ponto de repouso da gratificação. Vive constantemente num sentimento de carência e de culpa. E visto que, em última instância, está concorrendo consigo mesmo, procura superar a si mesmo até sucumbir. Sofre um colapso psíquico, que se chama de burnout (esgotamento). O sujeito do desempenho se realiza na morte. Realizar-se e autodestruir-se, aqui, coincidem".
Era 2018 quando li. De lá para cá, porém, um outro conceito que ele aborda na obra me ocorre mais vezes enquanto penso a respeito desse sentimento que nos arrebata: "O sujeito de desempenho esgotado, depressivo está, de certo modo, desgastado consigo mesmo" (...) "Desgasta-se correndo numa roda de hamster que gira cada vez mais rápido ao redor de si mesma."
Quando faço meus treinos de corrida na esteira, é comum que eu me sinta como um hamster naquelas rodas enormes. Então, repito para mim mesmo que sou um homem, não um rato, e aumento a velocidade. Acelero mais e mais, feliz em saber que meu relógio Garmin está medindo minha performance e termino o treino satisfeito por ter me superado, feliz em corresponder às expectativas do meu relógio e com esperança de que no dia seguinte, ao amanhecer, ele diga que meu status agora é excelente, produtivíssimo, que finalmente me tornei uma máquina.
Na semana passada, estava aqui e Nina apareceu. Falei sobre o que escrevia, trocamos algumas ideias, até que ela comentou: "pai, bem que você poderia escrever algum dia sobre essa história de produtividade e 'fazer coisas úteis' sobre a qual conversamos durante minha viagem". Com o advento da inteligência artificial generativa e com as novas tecnologias, ela argumentou, esse sentimento utilitário sobre a vida está ficando ainda mais acentuado. Fiquei de pensar no assunto.
Quando a vida, no lugar do conjunto de nuances que a qualificam, passa a ser quantificada, perde o que tem de essencial. Não é de se espantar, portanto, que seja descartável o indivíduo que se reduz a uma pilha de informações processadas e que tem de si a imagem que enxerga na medida de uma régua.
Tenho esquecido meu relógio em uma gaveta de uns tempos para cá. Talvez isso tenha comprometido o prazo para escrever e entregar essa coluna a tempo. Mais cedo, quando o peguei para usar em uma corrida, olhei para a tela e li meu status. Sigo improdutivo. Agora com uma boa dose de orgulho.
(Se quiser continuar a conversa, me escreva. Estou no e no ).
[refs] Essa semana,
li que (não ria, você também está) e estou vendo, na tv que me espia, a nova temporada da . Assisti também à última temporada de , mas não queria que fosse a última.
Estou lendo , de Karl Ove Knausgård, e às voltas com os contos da Clarice Lispector em . Li ainda uma explicação sobre porque acho que preciso saber disso e estava com FOMO. Li, por fim, sobre no site do floatvibes. Até!
Opinião
Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.
** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.