Desenrola para quem ainda não está enrolado só tirando coelho da cartola
Em duas semanas, o programa Desenrola 2.0, no segmento de atendimento a famílias, propiciou a renegociação de R$ 10 bilhões em dívidas atrasadas, beneficiando mais de um milhão de pessoas. Como previsto, as renegociações vão ganhando aceleração com o avanço no prazo de 90 dias fixado pelo governo, a contar do início de maio.
Essas informações foram transmitidas, em entrevista a jornalistas, nesta quinta-feira (21) pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, e pelo secretário-executivo do Ministério, Rogério Ceron.
Perguntado, no fim da entrevista, sobre o andamento de um Desenrola para quem mantém as prestações em dia, anunciado pelo governo quando do lançamento do programa para inadimplentes, Durigan foi evasivo. Preferiu não adiantar como está o desenho do programa e, pressionado, adiou seu lançamento para algum dia não definido de junho.
Travado na largada
A resposta evasiva do ministro sobre o Desenrola para quem ainda não está enrolado é um indicador de que o programa travou na largada e de que o governo terá de tirar algum coelho da cartola para pôr de pé a renegociação de dívidas de adimplentes.
Faz sentido botar de pé um programa de renegociação de dívidas de bons pagadores depois do lançamento de um programa de renegociação de dívidas de maus pagadores. Os programas são complementares, na medida em que beneficiar apenas quem carrega dívidas em atraso constitui incentivo óbvio para que não se paguem no prazo as prestações contratadas.
É "risco moral" na veia. "Risco moral" (do inglês "moral hazard") é o incentivo à tomada de decisões irresponsáveis, na expectativa de que a irresponsabilidade será anistiada ou aliviada.
Ver quem não cumpre o que prometeu recebendo benefícios para ficar na mesma situação dos que cumprem é estímulo evidente a que não se mantenham os compromissos em dia até vir uma anistia ou quase isso.
Onde bancos ganham e perdem
Mas, diferentemente do programa para aliviar o orçamento dos inadimplentes, que contou com o apoio ativo das instituições emprestadoras, a extensão do benefício aos que conseguem manter o nome limpo na praça está enfrentando resistências dos bancos.
Essa resistência foi explicitada pelo presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney, ex-diretor do Banco Central, em entrevista à jornalista Amanda Klein, no programa Mercado Aberto, que ela apresenta diariamente no UOL.
Também indagado sobre o programa de alívio de dívidas para quem não está com o CPF negativado, Sidney deixou clara a razão do desinteresse dos bancos em aderir ao programa:
"Repactuar dívidas sem atraso, de modo genérico, fere a racionalidade econômica das operações, anulando na prática a rentabilidade dos financiamentos" - Isaac Sidney, presidente da Febraban
O presidente da Febraban não está errado. Não é difícil entender que, se um empréstimo está sendo cumprido sem inadimplência, reduzir seu montante com descontos e os juros pagos, alongando prazos, mesmo com garantias do governo, é perda de receita e de rentabilidade.
A situação é diferente no caso da renegociação de dívidas com quem não está quitando o compromisso assumido. A inadimplência é elemento relevante de despesas, redução de margens e, no final, prejuízos para os bancos. Aliviar o devedor em atraso também significa aliviar a contabilidade das instituições que carregam clientes inadimplentes.
Provisões acima dos lucros
No primeiro trimestre deste ano, a inadimplência na chamada indústria bancária subiu para 5,5%. Não é o índice mais alto da história, mas é o maior desde os picos do período de recessão forte no segundo governo Dilma até o impeachment e, depois, já na presidência de Michel Temer, entre 2015 e 2017.
Cerca de R$ 50 bilhões tiveram de ser provisionados para suportar devedores duvidosos pelos cinco maiores bancos brasileiros, por volume de ativos, nos primeiros três meses de 2026. No mesmo período, os lucros desse grupo de bancos ficaram em R$ 30 bilhões.
As provisões para inadimplentes, no primeiro trimestre, só representam 50% a mais do que os lucros dos maiores bancos porque mais devedores ficaram com a água pelo pescoço. Uma novidade na contabilidade dos bancos ampliou a necessidade de manter provisões.
Novas regras para a parte de provisões, formalizadas pelo Banco Central em 2025, depois de um período de transição, passaram a operar de fato no começo de 2026, com efeitos completos sobre os balanços do primeiro trimestre.
No começo do ano, o Banco Central formalizou a adesão aos princípios de provisão para devedores duvidosos adotados aos poucos mundo afora depois da grande crise de 2008. Não mais o volume de dívida não quitada há mais de 90 dias deve ser provisionado. As reservas para inadimplência devem agora também cobrir perdas esperadas desde a contratação do financiamento.
Aspirador de lucros
A moral dessa história é que o Desenrola 2.0, exclusivo para inadimplentes, além de beneficiar pessoas, pequenos empresários, agricultores familiares e estudantes, beneficia talvez mais do que todos esses grupos, mais um: os bancos. Com garantias do governo, o programa liquida grande parte do aspirador de lucros de carregar a inadimplência de clientes.
Do outro lado da moeda, um Desenrola para quem ainda não está enrolado também aspira lucros dos bancos, ao reduzir custos de financiamentos para clientes em dia. Redução de custo para clientes configura redução de receitas — e lucros — para os emprestadores. Como fazer os bancos aderirem a um programa que tende a encolher seus lucros não deve ser coisa simples.
Opinião
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** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.