Bolsa reage às pesquisas eleitorais? Essa conversa não fecha

15 de Set de 2026 - 11:30
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Bolsa reage às pesquisas eleitorais? Essa conversa não fecha

O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, abriu em baixa a sessão da segunda-feira (14). Nesta terça-feira (15), depois de abrir em alta, o índice voltou a recuar, batendo nos mesmos 185 mil pontos em que se acomodou na semana passada.

Também nesta segunda-feira, mais uma rodada da pesquisa Quaest/TV Globo pela primeira vez aponta Flávio Bolsonaro à frente de Lula, no segundo turno das eleições presidenciais de outubro, ainda que dentro da margem de erro.

Pela insistente narrativa do mercado financeiro desde fins do mês passado, quando o Ibovespa reverteu um período de baixas sucessivas e alcançou novos picos de alta, era para a Bolsa dar um repique de alta e o dólar voltar a ceder. Só que não.

"Trade eleitoral" não se sustenta

Por que será que a narrativa de que o impulso da Bolsa em setembro era reflexo do acirramento da disputa eleitoral, com Flávio Bolsonaro se aproximando de Lula nas pesquisas e até vencendo no segundo turno, não anda batendo com os pregões dos últimos dias?

A resposta, para quem não se deixa levar pela conversa dos operadores do mercado financeiro: porque o "trade eleitoral", ou seja, o impacto de pesquisas eleitorais nos movimentos do mercado acionário, não se sustenta e, para ser condescendente, é pequeno, se existe.

A curva do Ibovespa em setembro mostra uma alta de quase 5% até agora. Mas a mesma curva mostra também que, depois de um salto no dia 2 deste mês, saindo de 179 mil pontos para 185 mil pontos, o índice andou de lado daí em diante.

Nesse período, a maior parte das pesquisas apontou avanço de Flávio Bolsonaro. Era de se esperar, se a ascensão do candidato bolsonarista realmente puxasse o índice para cima, que o Ibovespa engatasse uma sequência de altas. Isso, porém, não ocorreu.

"Fazendo preço" na incerteza

Quem vende a ideia de um "rali eleitoral" nesta primeira quinzena de setembro, e a menos de um mês do primeiro turno, se apoia num argumento com ares técnicos, mas insuficiente para sustentar a ideia de uma influência predominante das pesquisas eleitorais no Ibovespa.

De acordo com o argumento, a alternância no poder traria mais chances de execução de uma política econômica mais favorável à valorização de ativos financeiros, como as ações de empresas negociadas em Bolsa. O roteiro seria o seguinte: cai o risco fiscal, os juros futuros longos recuam, empresas investem, sobe o valor presente delas e de suas ações.

Mas quem garante que, no governo, Flávio Bolsonaro de fato atuará na linha da austeridade fiscal radical anunciada por seus porta-vozes na economia? Mais do que isso, quem garante que conseguirá executar uma política capaz de promover superávits fiscais e moderar a trajetória da dívida pública e ainda fazer a economia avançar? O mercado não estaria "fazendo preço", como diriam operadores, com base em uma cadeia de acontecimentos bastante incerta?

Quaisquer que sejam as respostas, a narrativa da influência de uma torcida por Flávio Bolsonaro pede que se detalhe o que é esse "mercado" que compra ações e aposta na alta dos papéis negociados na Bolsa quando o candidato oposicionista aparece bem em pesquisas.

Mercado de profissionais

Para começar, a Bolsa brasileira tem algumas peculiaridades. Uma delas é que a maioria das suas operações é de responsabilidade de investidores estrangeiros. Eles respondem por mais de 60% do volume diário negociado.

Depois deles, os maiores aplicadores são os chamados "investidores institucionais" — fundos de investimento, previdência privada e seguradoras. Junto com bancos e outras instituições financeiras, respondem por cerca de 20% do volume diário. Estes investidores institucionais dominam o total de recursos representativos das ações mantidas em custódia na Bolsa, mas não o giro diário, que aparece nos vaivéns do Ibovespa.

É possível acreditar que as pessoas físicas seriam mais suscetíveis a seguir uma estratégia de aplicação no mercado de ações mais sensível a opções e escolhas políticas pessoais. Mas, para os cinco milhões de pessoas físicas cadastradas na Bolsa, sobra uma parcela inferior a 20% do giro diário. Como se vê, sua capacidade de formar preços nos pregões e, portanto, puxar o Ibovespa é bastante limitada.

Quem "faz preço" na B3 e pode puxar o Ibovespa são profissionais. No caso dos estrangeiros, parece evidente que pesam muito mais nas escolhas as eventuais vantagens do "carry trade" — tomar dinheiro em mercados com juros mais baixos para aplicar onde os juros são mais altos e ações, em dólares, estão muito "descontadas" — ou seja, baratas. Depois de um período de retração em agosto, estrangeiros voltaram à Bolsa brasileira em setembro, injetando mais de R$ 10 bilhões, somando inversões no mercado à vista de ações, ofertas primárias e fluxos no mercado de derivativos.

Quanto aos profissionais, gestores de fundos de investimento ou de recursos de milionários, é preciso alguma dose de ingenuidade para acreditar que estes alocam recursos de clientes com base em avaliações políticas ou ideológicas.

Mais Petrobras do que pesquisas

É possível que eles aproveitem ondas, embarcando ou alimentando um efeito manada, mas quando agem assim se colocam na ponta da especulação mais aberta, o que é denunciado pelos movimentos de "realização de lucros" que rapidamente se seguem a altas sem boas explicações técnicas.

A composição do Ibovespa completa o quadro que dá suporte à descrença numa influência predominante de pesquisas eleitorais nos movimentos dos pregões. O índice é concentrado em ações de alguns setores da economia, como bancos e indústria extrativa mineral, que exportam commodities negociadas em mercados internacionais, em que se destacam a Petrobras e a Vale.

Ações de instituições financeiras ao lado de Petrobras e Vale concentram quase metade do Ibovespa. Só os papéis da Petrobras respondem por pouco menos de 15% do índice.

Nesta metade de setembro, com o prolongamento da guerra dos Estados Unidos-Irã atingindo áreas produtoras de petróleo no Oriente Médio, as cotações do barril de petróleo voltaram aos US$ 100 e as ações da Petrobras registraram alta acumulada de 5%. Foram as maiores puxadoras do Ibovespa no período.

Opinião

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL.