Uma semana para lembrar que a cidadania se cultiva
Recentemente, durante uma conversa com educadores, ouvimos um relato simples, mas revelador. Numa escola, dois estudantes começaram a discutir por causa de uma divergência política. A conversa escalou rápido: interrupções, rótulos, irritação. Ao perceber o que acontecia, a professora pediu que ambos permanecessem após a aula e conduziu uma conversa entre eles.
Ao final, nenhum mudou de opinião. Mas algo importante aconteceu: pela primeira vez, cada um pôde explicar suas convicções até o fim, sem ser interrompido, e enxergou que, por trás das ideias das quais discordava, existia uma pessoa.
Esse relato contém uma lição maior do que parece: democracias não sobrevivem porque todos concordam, mas porque aprendem a conviver com as diferenças. Diante da crise de confiança, das polarizações radicalizadas e da violência política, essa talvez seja uma das tarefas mais urgentes do nosso tempo.
Por exemplo, uma pesquisa recente do Instituto Sivis, intitulada "Entre direitos e limites: percepção dos brasileiros sobre liberdade de expressão e democracia", constatou que 1 em cada 4 brasileiros se autocensura ao falar de política – seja com amigos, familiares ou colegas de trabalho. Pensando na formação das futuras gerações, são dados certamente preocupantes.
Vivemos uma época em que nunca foi tão fácil expressar opiniões. Mas a mesma tecnologia que ampliou nossas vozes nem sempre aumentou nossa capacidade de escutar. Há abundância de informação e muitos espaços de manifestação. Porém, falta disposição para ouvir quem pensa diferente. Parece que desaprendemos a arte de discordar sem nos tornarmos adversários. E se a capacidade de diálogo estiver prejudicada, a construção de soluções para problemas comuns é afetada.
É nesse contexto que a aprovação, pelo , da Semana Nacional da Educação Cidadã merece ser recebida com entusiasmo. A conquista resulta do trabalho de dezenas de organizações, educadores, pesquisadores e lideranças da sociedade civil que acreditaram em uma ideia simples e profunda: a cidadania não pode ser tema periférico na formação das novas gerações. E, concretamente, a partir deste ano, o país passará a dedicar uma semana a debates, exposições, visitas e projetos voltados à vida em comunidade e à formação de uma cultura democrática robusta.
Mas a relevância dessa conquista vai além de uma data no calendário. Ela reconhece que a é mais do que um sistema político. Democracia é também cultura, construída a partir de valores, hábitos e experiências compartilhadas. E destaca algo importante: a educação para a cidadania é suprapartidária e, para isso, deve colocar o estudante como protagonista do processo formativo – sendo o professor um fundamental estimulador desse processo. É por isso que a Semana Nacional da Educação Cidadã será celebrada anualmente na segunda semana de agosto, em alusão ao Dia do Estudante, comemorado em 11 de agosto.
Costumamos imaginar que a qualidade da vida pública depende apenas de boas instituições. Elas importam, sem dúvida. Mas nenhuma instituição é mais forte do que a cultura que a sustenta. Nesse sentido, a confiança, o diálogo, o respeito às diferenças e o compromisso com o bem comum não surgem por decreto, mas são aprendidos ao longo da vida. Esse é o fundamento da formação de uma verdadeira cultura democrática.
Por isso a educação é decisiva. A escola não é apenas o lugar onde aprendemos matemática ou literatura. É um dos primeiros espaços em que convivemos com quem é diferente de nós e descobrimos que a liberdade exige responsabilidade e que direitos caminham ao lado de deveres.
Portanto, formar cidadãos vai muito além de prepará-los para o voto. Significa ajudá-los a pensar melhor e a desenvolver a capacidade de ouvir, argumentar e cooperar na construção de soluções para problemas que pertencem a todos. Diante de tantas divisões, essa missão se torna ainda mais relevante.
No fundo, a professora daquela história, que contamos no início, compreendia muito bem tudo isso. Como observou Hannah Arendt, “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumir a responsabilidade por ele”. Ao ensinar dois estudantes a dialogar, aquela professora fazia muito mais do que resolver um conflito escolar: assumia, na prática, essa responsabilidade e ajudava a construir uma sociedade mais livre, humana e democrática.
Porque a cidadania é sustentada todos os dias, muito antes da urna e muito depois dela. Por isso, é preciso um trabalho permanente de formar pessoas capazes de enxergar o outro não como um adversário a ser derrotado, mas como um cidadão com quem compartilhamos o futuro.
Guilherme Melo de Freitas é especialista em Educação do Instituto Sivis; João Tavares é diretor executivo na Rede Nacional de Educação Cidadã,
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