Roblox inverte papéis e cria jogo para criança ensinar regras a adultos
A Roblox é, dentre as grandes plataformas digitais, aquela onde a diferença geracional fica mais evidente. Crianças e adolescentes navegam com espantosa naturalidade pelo site, com a certeza que só tem quem participou da concepção das regras que regem aquele espaço virtual —coisa que elas não fizeram. Adultos, tadinhos, penam para entender se estão diante de um jogo, uma loja de aplicativos, um antro de perdição digital ou das três coisas juntas.
E o Roblox sabe disso. Só que, seja para cumprir leis e aquietar a pressão social, seja para transmitir a sensação de "hey, seu filho está seguro conosco", a empresa precisa convencer adultos a decidirem o que seus rebentos farão, com quem conversarão ou como gastarão seu tempo na plataforma.
Movimento semelhante acontece com outras plataformas. , Meta, Google, Apple possuem as contas de adolescente, em que adultos moldam a experiência de crianças. Mas, como não sabem como o Roblox funciona, eles não sabem nem por onde começar. Para ver a coisa funcionar, o empresa criou um caminho alternativo: inverteu os papéis, e são crianças que guiam os pais pela plataforma. E tudo começa num jogo.
Desenhado ao longo de quase um ano pelo Roblox, o game Family Zone coloca pais e filhos para cooperarem:
- A dupla é envolvida pela história de Nurba, um personagem virtual inspirado no axolote, um anfíbio típico do México. Ela conta que um festival local está para ocorrer, e a missão é achar e recuperar seus ovos para não atrapalhar a festa;
- O detalhe técnico: filhos e filhas atuam como mentores de seus responsáveis, ensinando comandos básicos de movimentação de personagem e de câmera, tanto no computador quanto no celular;
- Depois das missões cooperativas, o jogo libera a parte que, a meu ver, interessa à empresa: a configuração dos controles parentais. O adulto aprende a vincular a própria conta à de sua criança e a definir parâmetros (quantos Robux, a moeda digital, a criança pode gastar por dia; quais jogos pode acessar; com quem pode conversar, quanto tempo pode passar na plataforma; qual classificação de conteúdo é adequada etc);
- Lançado em 18 de junho, o Family Zone acumulou mais de 10,8 milhões de acessos. Segundo os executivos, dados internos mostram recorrência de famílias, que retornam ao mapa para novas partidas;
- O jogo nasceu de um arranjo incomum para empresas de tecnologia. Para orientar os times de produto e engenharia, o Roblox possui conselhos consultivos de jovens de 14 a 17 anos espalhados pelo mundo e comitês de pais liderados por especialistas como a dra. Elizabeth Milovidov;
- Foram desses grupos que nasceu uma percepção conjunta: as crianças querem jogar com os pais, mas eles recusam. Não é falta de interesse, porém. É vergonha;
Crianças querem jogar com os pais, mas eles não se sentem à vontade com as próprias habilidades de gamer, com a tecnologia. Ficam meio envergonhados de tentar e simplesmente não sabem como. Isso é frustrante para eles. Se adicionarmos apenas mais uma lista de tarefas na vida atribulada de um pai, ele não vai cumprir. Por isso integramos a configuração dos controles diretamente no gameplay
Genevieve Johnson, designer de aprendizagem do Roblox
- O jogo é para crianças menores, mas adolescentes, ainda que escondam, anseiam pela presença dos pais em suas vidas, mesmo que digitalmente.
Meu filho é apaixonado pelo Roblox e eu não entendo por quê
Tami Bhaumik cansou de ouvir essa frase. Antes de ocupar o cargo atual, ela foi durante anos a líder global do marketing do Roblox —ajudou a desenhar a marca e o logo que a empresa usa até hoje. Foi neste posto que, em 2019, viu a cena que mudou sua perspectiva sobre a plataforma.
Durante conversa com a mãe de uma menina de 8 anos, a mulher começou a chorar. Disse estar apavorada: sem computador em casa, não fazia ideia de como proteger sua filha no mundo digital. Mãe de duas crianças, Tami ficou mexida.
A fórmula adotada agora pelo Roblox tenta quebrar uma lógica da indústria digital. Na esmagadora maioria das plataformas sociais, as ferramentas de supervisão parental operam como painéis remotos: o adulto restringe funções à distância e a relação com a criança ou o adolescente vira um cabo de guerra burocrático. Ao apostar no jogo cooperativo, o Roblox submerge o adulto no ambiente visual onde as interações acontecem.
A novidade chega num momento em que as plataformas digitais passam por escrutínio sem precedentes. Assim como boa parte delas, o Roblox passou os últimos anos no banco dos réus da opinião pública, mas, em alguns casos, foi parar mesmo no banco dos réus. Procuradores-gerais dos estados norte-americanos Louisiana, Kentucky e Texas processaram a empresa, acusando-a de expor crianças a predadores. Ainda em andamento, os casos não produziram condenações.
No Brasil, o clima é de efervescente cobrança por salvaguardas ao público infantojuvenil, graças à aprovação do ECA Digital, a lei que obriga plataformas a proteger menores de idade por padrão. Para muitas famílias, o Roblox deixou de ser "aquele jogo de bloquinho" para ser visto como território desconhecido, cheio de riscos que elas não sabem nomear.
É por isso que o Roblox não esconde: a meta declarada é tirar o estigma de jogos eletrônicos serem mero isolamento e dar a pais e mães a dimensão de por que o filho passa horas na plataforma.
Com a autoestima em dia —no que eu não a julgo— Tami diz torcer para a ideia ser copiada por outras empresas.
Os pais acham que games são coisa de criança. Mas, quando entram e veem do que se trata, abre-se um mundo para eles entenderem um pouco da vida dos filhos e por que eles amam aquilo. O jogo dá à criança senso de independência, de conquista, de progressão.
Tami Bhaumik, vice-presidente do Roblox
A ação dialoga ainda com outras medidas recentes da companhia, que foi a primeira a tornar mandatório, ainda em janeiro, a verificação etária para separar as conexões entre adultos e crianças desconhecidas —segundo a empresa, 57% dos usuários já fizeram a checagem, realizada por reconhecimento facial ou submissão de documentos oficiais.
Por mais que Nurba seja fofa e a proposta de colaboração familiar tenha apelo inquestionável, o Family Zone não resolve as dores de cabeça estruturais de segurança enfrentadas por plataformas do porte do Roblox.
Em primeiro lugar, o jogo ensina comandos rudimentares (andar pelo mapa, saltar e mover a câmera), enquanto os milhares de jogos ativos na plataforma possuem mecânicas e camadas de complexidade para lá de superiores. Saber pular plataformas ao lado de um axolote dificilmente prepara um adulto para fiscalizar —ou mesmo entender— as transações e interações complexas que rolam em salas de chat abertas. Para fugir dos filtros de linguagem do Roblox, os usuários criam uma espécie de idioma particular que dificulta identificar o que são condutas inadequadas ou práticas aceitas por todo mundo.
Em segundo lugar, a estratégia depende do engajamento voluntário do mesmo responsável já soterrado com rotinas estafantes e falta de tempo. Se o pai não sentar no sofá e topar o convite da criança para baixar o game, todo o esforço de conscientização evapora.
Tami reconhece as limitações do game, que está apenas na primeira versão e foi pensada para crianças pequenas e seus pais. Em breve, diz, virá uma edição para filhos mais velhos, para estimular outras habilidades.
Haverá ainda novos minijogos focados em situações específicas, como:
- Saúde mental: criado com a Koko Cares, organização especializada em saúde mental de jovens, o módulo ajudará crianças que sofrem bullying ou que sentem terem perdido o controle da própria vida;
- Golpes: a experiência ensinará caminhos para lidar com fraudes digitais, dentro e fora do Roblox;
- Abuso infantil: a interação detalhará como reconhecer tentativas de aliciamento online, o "grooming";
- Mais filhos: hoje, o jogo funciona só com um adulto e uma criança, mas uma expansão permitirá mais filhos.
O tempo dirá se o jogo conjunto servirá de vacina duradoura contra os perigos da internet ou se ficará restrito a uma tarde divertida de domingo antes de a tela voltar a ser um ponto cego dentro de casa.
Reportagem
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